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A ética do século XXI

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17mai

Professor Renato José de Oliveira explica como entender o conceito nos dias de hoje

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Por Marcus Tavares

Ética: parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social. É assim que o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa significa a palavra ética. No senso comum, é todo aquele conjunto de normas e valores morais que vem se perdendo no dia-a-dia de nossa sociedade. Da política às relações pessoais no trabalho e em casa.

A revistapontocom resolveu aprofundar o assunto e entrevistou o professor Renato José de Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Sua tese de doutorado, orientada por Leandro Konder, na PUC-Rio, discutiu a formação ético-política do homem contemporâneo. Atualmente, o professor coordena um projeto de pesquisa que tem o objetivo de investigar quais normas éticas/morais e  hierarquias de valores se fazem presentes na visão de mundo de estudantes do Ensino Fundamental do município do Rio de Janeiro.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Como podemos definir, nos dias de hoje, ética? O que é ética neste início do século XXI?
Renato José de Oliveira -
É possível dar várias definições para a ética, a qual pode ser situada como parte da filosofia prática que tem o propósito de desenvolver reflexões sobre a moral ou, podemos dizer, que são valores e regras de conduta que orientam as ações de grupos determinados, conforme prefere, por exemplo, Michel Maffesoli [sociólogo francês]. Na minha opinião, a ética não diz respeito apenas à reflexão de cunho filosófico sobre problemas morais nem ao que rege a conduta de grupos particulares, mas a valores, hierarquias de valores, princípios, normas e hábitos que orientam as ações do homem no contexto de suas múltiplas relações.

revistapontocom – Ser ético é um processo de aprendizagem?
Renato José de Oliveira
– Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, já dizia que as coisas que precisamos aprender antes de fazê-las só são realmente aprendidas quando as fazemos. Afirmou, com muito acerto, que só nos tornamos justos praticando a justiça, moderados agindo com moderação e assim sucessivamente para tudo o que se refere ao que chamamos de virtudes. A aprendizagem da ética, portanto, se dá fundamentalmente pelo envolvimento em situações que nos exijam sermos justos, respeitosos, solidários, não egoístas etc. É um processo que só termina quando cessamos de existir.

revistapontocom – Mas a quem cabe, por exemplo, ensinar crianças e jovens a se comportarem frente a estas situações?
Renato José de Oliveira
– A todos os grupos sociais com os quais as crianças e os jovens convivem: a família, a escola, o grupo comunitário, o grupo religioso etc. Nenhum desses agentes possui, exclusivamente, a prerrogativa de formar eticamente o caráter dos educandos, mas todos têm importantes contribuições a dar, mesmo quando fornecem orientações conflitantes. À medida que isso ocorrer, será preciso problematizar as diferenças e não simplesmente prescrever o que é o certo e o que é o errado.

revistapontocom – Ensinar ética, nos dias de hoje, é uma tarefa difícil?
Renato José de Oliveira
– Sem dúvida, pois exige dos educadores (todos aqueles a quem me referi na questão anterior) não só proporcionar situações para que as crianças e os jovens vivenciem as questões éticas, como também repensar constantemente suas próprias formas de conduta e as orientações que dão para eles.

revistapontocom – Podemos afirmar que a ética de uma sociedade se transforma no tempo e no espaço?
Renato José de Oliveira
– Entendo que a ética se transforma à medida que lida com valores, hábitos e normas que não permanecem os mesmos no curso da história nem são concebidos da mesma forma pelas diferentes sociedades humanas. Na época de Aristóteles, por exemplo, torturar um prisioneiro para obter sua confissão era considerado um procedimento ético, ao passo que nos dias de hoje é uma flagrante violação dos direitos humanos, sendo punida como crime.

revistapontocom – A ética que vivenciamos no mundo globalizado, individualizado e impactado pelas mídias é mais complexa do que a ética das gerações anteriores?
Renato José de Oliveira
– Cada geração enfrenta seus próprios problemas éticos/morais e não há como medir se uma transgressão ao que é considerado ético em determinado contexto histórico é mais grave que outras, ocorridas em contextos diferentes. Há uma tendência em dizer que no momento atual as coisas estão piores que no passado, mas, só para citar um exemplo, a criação do biquíni nos anos 1950, talvez, tenha causado indignação até maior do que o aborto voluntário e a eutanásia causam hoje em dia. Por outro lado, em um mundo globalizado e impactado pelas mídias, a velocidade com que as informações são difundidas dá a impressão de que as ações desrespeitosas que aviltam a dignidade humana estão por toda parte e ocorrem a todo momento. São tais ações, e não as que contribuem para tornar a convivência humana mais harmoniosa, as que merecem maior destaque nos noticiários. Comportamentos não éticos “vendem” mais do que comportamentos éticos, infelizmente.

revistapontocom – Por que, atualmente, temos a sensação de que a ética sempre está ameaçada, que a ética não é mais um valor ‘sagrado’?
Renato José de Oliveira
– Não vejo a ética como valor sagrado. Para mim, é uma construção humana e, portanto, sujeita a muitas limitações e imperfeições. O importante, porém, não é querer forjar modelos perfeitos que sirvam de guia e, sim, procurar aperfeiçoar os mecanismos que regulam as relações humano-sociais, visando reduzir as distâncias (étnicas, políticas, religiosas, morais etc.) que põem os indivíduos em conflito. A descrença na via da negociação entre interesses distintos e na argumentação como forma de se chegar a soluções razoáveis para os problemas éticos é que acaba por gerar a sensação de que a convivência respeitosa e pacífica entre os diferentes está ameaçada.

revistapontocom – De acordo com a pesquisa desenvolvida pelo senhor, quais são os valores éticos/morais dos alunos do Ensino Fundamental?
Renato José de Oliveira
– A pesquisa ainda não foi concluída, mas as análises preliminares dos dados obtidos mostram que respeito e justiça são valores muito citados pelos alunos. Há, portanto, correspondência com o discurso hoje predominante na sociedade brasileira, o qual tem denunciado o desrespeito ao outro, nas diversas formas em que se manifesta, e a impunidade como problemas graves a serem combatidos. Foi constatado, também, que ações normalmente consideradas não éticas, por exemplo mentir, perdem essa qualificação quando se trata de preservar a vida: a maioria dos alunos considerou ético o ato de mentir para salvar a vida de um homem condenado injustamente à morte.

2 thoughts on “A ética do século XXI

  1. Fotografar um cadaver para fazer o jornal vender mais, sensacionalizar e esticar um drama (como o sequestro da adolescente pelo namorado em SP) para ganhar mais ibope é etico?, se a familia tivesse direito a receber direito de imagem ou indenização pela exposição do cadaver do ente querido, tenha sido ele bom ou mal, talves essas coisas fossem relegadas apenas a informações escritas em paginas internas. Interromper uma transmissão esportiva, onde teóricamente a pessoa esta tentando se desligar do cotidiano, para dar noticias tragicas e inuteis como ” um homem não identificado foi encontrado morto na linha vermelha” não agreou nada e interrompeu um momento de lazer, a maioria das rádios tem um ou mais jornalistas buscando noticias ruins, é ético? a serviço de quem esta a mídia ao nos injetar doses insistentes de negativismo ? gostaria que a midia de massa tivesse interesse real em aprofundar esse tema ética.
    Um abraço

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