A revista da midiaeducação

O papel do professor na Educação Inclusiva

Escrito em 15 outubro, 2009 - 4 comentários

Por Cláudia Linhares Lucas Ferreira
Professora da Escola Municipal Tagore, Rio de Janeiro

Comete grande equívoco quem pensa que o ato de incluir-se, o esforço de socializar-se, está restrito aos portadores de necessidades especiais. Avaliando todo o nosso processo de vida, desde o ventre materno à velhice, todos nós estamos em constante movimento de inclusão.

Quando rompemos a vida intra-uterina e despertamos no nascimento, passamos imediatamente a ser incluídos. No primeiro momento, em nosso núcleo familiar. Aos poucos, todos ao redor terão que se adaptar à chegada de mais um, que, diga-se de passagem, muda toda uma rotina. Depois, temos que lutar para que sejamos incluídos nos grupos com os quais desejamos interagir.

Lutar para nos incluir numa escola, num curso, na turma do clube, no time de futebol, nos grupos religiosos… Mais tarde, nas turmas do cursinho, na turma dos programas de fim de semana… Temos que nos incluir, também, na turma do computador e logo logo teremos que nos incluir na vida profissional, ensinar por nosso esforço e dedicação que somos capazes, que a sociedade pode nos confiar a tarefa e execução da proposta profissional. Temos assim que nos incluir no mundo, para que vivamos, nos socializemos e cresçamos a partir dessa convivência.

Ainda existem as inclusões relativas a cada indivíduo, aquelas que vão acontecendo paralelamente a todas as já citadas. Incluir-nos no paradigma de beleza construído pala sociedade, nos padrões da moda de cada estação… É o “feio” que precisa ser incluído no universo dos “bonitos”, o idoso que precisa incluir-se numa sociedade que demonstra que, cada vez mais, não está preparada para abraçar seus “velhos”, o analfabeto que precisa incluir-se numa sociedade de signos, nem sempre fáceis de serem decifrados…

Inclusão, inclusão, inclusão…

É de inclusão que se vive a vida. Para Paulo Freire, é assim que os homens aprendem, em comunhão. “O homem se define pela capacidade e qualidade das trocas que estabelece” e isso não seria diferente com os portadores de necessidades especiais.
Inseridos numa sociedade que exige saber conviver para sobreviver, necessitamos cada vez mais nos esforçar para garantir a inclusão deles, desde os primeiros anos de idade, em todos os espaços sociais, e a escola não está à parte desse espaço.

É fato que ao longo da vida, em nossas tantas lutas adaptativas, encontramos pessoas que nos facultam apoio e formação, seja de caráter ou de conhecimento teórico, para seguirmos nosso caminho. Não poderia ser diferente na educação formal. Assim, é que no âmbito escolar – em sala de aula, no pátio, no refeitório, enfim,  em cada parte -, o professor tem papel decisivo e de imensa responsabilidade nesse processo.

Não basta que haja numa escola a proposta de inclusão, não basta que a arquitetura esteja adequada. É claro que estes são fatores favoráveis, mas não fundamentais. É preciso que o coração esteja aberto para socializar-se e permitir-se interagir. E, como quem semeia com o tesouro do conhecimento, que refaz e constrói, é o professor que alavancará  os recursos insubstituíveis para uma educação inclusiva de qualidade.

Para isso, portanto, seu coração também precisa estar aberto. Ele igualmente terá que acreditar e se ver em processo de inclusão permanente, terá que criar e recriar oportunidades de convivência, provocar desafios de interação e aproximação, estabelecer contatos com os diversos e distintos saberes, planejando de forma flexível, mas objetiva, entendendo que a comunhão, a busca do semelhante e o reconhecimento de que ninguém detém um saber, favorecem a troca, a parceria e a segurança de uma inclusão com qualidade.

Se o professor acreditar que incluir é destruir barreiras e que ultrapassar as fronteiras é viabilizar a troca no processo de construção do saber e do sentir, ele exercerá seu papel, fundamental, para assegurar a educação inclusiva que todos nós desejamos, semeando assim um futuro que sugerirá menos discriminação e mais comunhão de esforços na proposta de integrar e incluir.

Artigo publicado na Revista Nós da Escola, da MultiRio

Comentários

Este conteúdo possui 4 comentários.
Deixe o seu comentário clicando aqui.

  1. Exmo Senhora, Fiz a leitura deste conte[udo t]ao rico que gostaria de ter mais pormenores sobre o papel do professor na educaç]ao especial. sou angolano por naturalidade e residencia numa das prov[incias de Angola Kuanza Sul munic[ipio do Ebo.funcion[ario da Administraç]ao do mesmo com a funçao de t[ecnico financeiro e finanças p[ublica.

  2. Excelente visão de mundo, submundo e vida. Lembro o aspecto FACILITADOR do professor Paulo Freire recomendado aos professores. Não uma facilitação barata, mas problematizadora, pensante e questionadora que busque soluções e facilitações aos mais necessitados de inclusão.O aspecto dialético EU-SOCIAL também importa, pois a vida é rio que corre em direção a ondas que exigem combate e “que aos fracos abate”. ATENDIMENTO PERSONALIZADO é suporte para inclusão social.

  3. Achei o artigo muito adequado. Penso como a colega, que não adianta o MEC disponibilizar uma proposta de AEE. A educação inclusiva só acontecerá de fato e de direito quando além de uma politica inclusiva efetiva, haja uma escola mais inclusiva, uma sociedade mais inclusiva. Os projetos garatem o direito, contudo, o sucesso dos mesmos depende não só de quem os executa ou dos sujeitos que são beneficiados por estes mesmos projetos. O sucesso depende de abrirmos todos (especialmente os políticos) mão da demagogia e nos voltarmos as diferenças. Não com comiseração mas numa aproximação justa e fraterna. Respeitando as diferenças inclusive que daaqueles educadores que tem tempos distintos para assimilar a proposta de inclusão… E também daqueles sujeitos que não desejam estar na escola dita regular. Respeitar as família que tem de ter garantido o direito de seus filhos permanecerem nas escolas especiais. Que aliás foi uma árdua conquista ao longo de muitas décadas. Enfim, a inclusão é muito maior que as discussões de Salamanca e tem de respeitar a diferença de cada país. Afinal o que é bom na Itália pode ser um fracasso aqui no Brasil.E também devemos pensar que tecnicizar a educação especial com formações de capacitação generalistas de 40 hs é um retrocesso a época das cavernas, dos primórdios da educação especial no país! Incluir com compromisso e responsabilidade tendo em vista que nosso alunos são mais que números para serem computados no FUNDEB!

  4. Parabéns professora,num tempo de tantas exclusões,buscar aproximar distâncias é uma importante
    atitude,especialmente como educador.Grande abraço e boa missão.

Comente este conteúdo